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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mestres da oralidade enchem de leveza Feira PanAmazônica do Livro


Particularmente, adoro percorrer Feiras de Livros. Sinto-me em casa. E, por isso mesmo, aproveito esses espaços para conhecer escritores, suas obras, e, também, tentar conseguir doações de livros para continuar meu trabalho de incentivo à leitura em nossas comunidades ribeirinhas da Amazônia (Amapá-Pará), por meio da montagem das nossas bibliotecas comunitárias BArca das Letras. Assim, sempre que posso, visito esses santuários literários, que, infelizmente, ainda são poucos no Brasil, sobretudo quando se fala da região Norte, da NossaCasa Amazônia.

E Belém é uma exceção à essa regra. Há 14 anos que a capital paraense realiza sua Feira PanAmazônica do Livro. De 27 de agosto a 5 de setembro aconteceu esse evento grandioso, num local construído e mantido com dinheiro público, imenso e confortável(Hangar Centro de Convenções). Notoriamente, a Feira está a serviço dos interesses econômicos dos gigantes do livro (Grandes Editoras e livrarias famosas), que comercializam, em locais estrategicamente bem posicionados, seus lançamentos a preços altos, aproveitando-se do grande número de visitantes, o que lhes rende, ao final, faturamentos milionários.

Os "pequenos" (mas de uma riqueza literária imensa), como os mais de duzentos escritores paraenses presentes (com mais de 1.500 obras publicadas), ficam na ilharga, em um canto da Feira, num estande apertadinho, denominado Luis Carlos França, homenagem póstuma ao contista. Mal acomodados (nem cadeiras para tod@s que se rodiziam durante todo o evento tem), buscam de todas as maneiras um lugar ao sol escaldante de Belém. E, com muito esforço, criatividade e muita poesia (por meio de eventuais saraus literários, exposições fotográficas e de artesanatos, Rádia NossaCasa Amazônia Livre ao vivo) tentam sobreviver e aparecer nessa guerra de gigantes da literatura. Na mesma pisada, o estande do Museu Paraense Emílio Goeldi com sua rica literatura voltada ao conhecimento produzido em pesquisas feitas em nossas comunidades ribeirinhas/tradicionais, falando de nossa gente, seus modos de vida, fauna e flora.


Sempre há um homenageado na Feira Panamazônica do Livro. Este ano, a mama África com seus países que falam a língua portuguesa, foi reverenciada durante os dez dias de estímulo à leitura. Um stand africano foi montado bem ao centro da Feira, aonde podia-se encontrar alguns títulos de escritores do continente irmão, disponíveis apenas para consulta no local.

E foi nesse clima afro que avistei, em uma passarela que cortava a Feira por cima, como uma grande ponte (sobre um rio de livros) a (inter)ligar, a unir, dois mundos diferentes(duas formas de fazer/vivenciar cultura), um pequeno cortejo com quatro mestres da diversa cultura popular brasileira à frente, cantando, suavemente, nossos ritmos afroameríndios amazônicos (carimbós, toadas, folias e cantos indígenas), como se tivessem borrifando em cima daquela multidão um pouco de mística, espiritualidade, sabedoria e, porque não dizer, humanidade. Ou seja, uma outra leitura de mundo, freirianamente falando, afinal, como nos ensina o escritor Frei Betto "há um processo sistemático de pasteurização da cultura, travestida de entretenimento centrado no consumismo, de hegemonização do pensamento, por meio da disseminação midiática de paradigmas comuns e do consumo padronizado, de modo a negar o pluriculturalismo, o direito à autonomia dos povos originários, a diversidade religiosa, os movimentos sociais emancipatórios, a cultura como processo crítico de leitura e transformação da realidade."

Os protagonistas dessa história, daquele momento mágico, eram o indígena Paulinho Wai Wai (Terra Indígena Mapuera/PA) e os griôs-Mestres Chico Malta, de Alter-do-Chão (Movimento Roda de Carimbó - Ponto de Cultura da OCA - Santarém/PA), Mestre Zé do Boi (Boi Bumbá Flor do Campo - Pontão de Cultura GAM - Marabá/PA) e Mestre Zé da Viola (Folia de Reis - Ponto de Cultura A Bruxa Tá Solta - Rorainópolis/RR), reconhecidos em suas comunidades, pelo Pontão Ação Griô Regional Amazônia e pelo Ministério da Cultura. Foram à Feira PanAmazônica para compartilhar seus saberes, fazeres, sua oralidade, com a galera da Cultura Digital, uns "meninos" mágicos da cidade de Santarém(Coletivo Puraqué), e dessa roda de conversa tentar construir uma convergência, entre os dois saberes, de forma que dessa união, se possa encontrar um caminho que des-esconda para o Brasil e o mundo (por meio de sites, blogs, audio-livro, CD's, vídeos) esse rico material literário vivo, demasiado humano, uma vez que nossos mestres-griôs são bibliotecas vivas e, como apregoava o mestre do Teatro do Oprimido, Augusto Boal, a "Arte não é adorno, Palavra não é absoluta, Som não é ruído, e as Imagens falam, convencem e dominam. A esses três Poderes-Cidadãos não podemos renunciar, sob pena de renunciarmos à nossa condição humana."

Que bom que um outro mundo é possível, que uma outra leitura de mundo está sendo pensada, praticada, vivenciada e estimulada nos rincões do norte do Brasil. Que venha a XV Feira PanAmazônica do Livro, com um novo olhar, um novo pensar, uma nova prática, verdadeiramente democrática e popular. E que se cumpra, na próxima Festa da Literatura Amazônica, o dizer do escritor popular, lá das ribeirinhas do Afuá(Cajary), Juraci Siqueira, que fez chover trovas e poemas: "mais importante do que vender o livro é o encontro, circular, trocar figurinha, ver o trabalho d@ outr@, e estar próximo d@ leit@r."

Nota 1: Fiquei muito triste em presenciar, na penúltima noite da Feira PanAmazônico do Livro, o encurralamento, logo na entrada do Hangar Centro de Convenções, de alguns grupos mantenedores da cultura popular paraense, os quais haviam sido convidados para fazer um Cortejo, que acabou não acontecendo. Lá estavam com toda sua alegria e energia os Grupos de Capoeira Regional Caiçara e União Capoeira; Boi Caprichoso; Grupo Cultural Pará Nativo; Escola de Samba Deixa Falar; Companhia Etnias da Dança; e o Ponto de Cultura Piratas do Amanhã (da Escola de Samba Piratas da Batucada. Lamentável...

Nota 2: Visite o espaço digital do Mestre Chico Malta e veja seus vídeos-clip, baixe as músicas e cifras do CD Nas Entranhas da Selva http://puraque.org.br/estudiolivre/?p=121.

Nota 3: Em breve, todos os vídeos gravados durante a Feira PanAmazônica do Livro estarão no nosso Canal Youtube NossaCasa http://www.youtube.com/user/NossaCasadeCultura

por Jonas Banhos
Mochileiro Tuxaua Cultura Viva
www.jonasbanhosap.blogspot.com
www.mochileirotuxaua.blogspot.com

2 comentários:

  1. Olá, amigo!
    Como tu mesmo costumas dizer, essa tua matéria é MASSA!. Gostei imensamente.
    Abraços literários

    Moura Reis - escritor paraense 11/09 por email


    Grande Jonas,
    parabéns! O artigo está muito bom.
    Abraço e boa sorte.
    osmar gregoldo - Brasília 11/09 por email

    Caríssimo Jonas Banhos
    Obrigado por nos banhar com as águas da sua comunicação ribeirinha , tuxaua da Radi@ Nossa Casa Amazônia Livre, estive olhando os seus blogs e vejo o seu desempenho em defesa da cultura amazônica. aguardo as filmagens no youtube.
    Se permitir divulgarei este relato em meus blogs.

    HÁ BRAÇOS
    sinval correa escritor, poeta paraense
    12/09 por email

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  2. Querido Jonas,

    Tenho acompanhado tuas andanças por teus e-mails. Este, agora, foi um dos mais "ricos" e gostei muito dele. Tanto por teu artigo, com emoções e informações, como pela indicação dos vídeos. Vi o do Chico Malta e me deu saudades de Santarém. Vi o depoimento com o ribeirinho, do qual também gostei pela autenticidade. Parabéns, enfim, pelo teu "suor".

    Enfim, meu caro Jonas, receba um saudoso e forte abraço e votos de muita alegria, felicidade, saúde e realizações!

    Arno - Alemanha por email em 13/09/2010

    que liiiiindoooooooooo!!!!!!! essa imagem de "...borrifando em cima daquela multidão um pouco de mística, espiritualidade, sabedoria e, porque não dizer, humanidade." é tudo de sensibilidade ... que belezura!

    Daraína Pregnolatto
    Diretora Geral /Guaimbê - Espaço e Movimento CriAtivo
    Tuxaua de brincadeiras, ritos e redes populares
    Coordenadora Ponto e Pontinho de Cultura, Leitura, Estória, Valor e Mídia Livre Quintal da Aldeia
    Coordenadora Pontão Ação Griô Guaimbê das Nascentes & Veredas

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