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domingo, 26 de setembro de 2010

O Círio na Comunidade Mocambo e os Mestres "des-escondidos" de Ourém do Pará



Estive mochilando pelas comunidades de Ourém (Pará) no período de 24 a 26 de setembro. Aceitei o convite do meu amigo da cultura popular e diretor da Rádio Comunitária Tembés FM, Arlindo Matos, e, da minha amiga Vanessa Silva, produtora cultural e do audiovisual no Pará, sempre acompanhada de sua amável filha Teresa, nossa mascote, que nos acompanhou durante toda a viagem em busca da Cultura Viva do interior do Brasil.

Já chegamos a Ourém no final da tarde e logo levados pelo nosso anfitrião para a Praça principal da cidade histórica com mais de 300 anos, localizada exatamente na rua que leva o nome de algum parente famoso da minha família Picanço, mas desconhecido por mim, até então. Lá nos deliciamos com um gostoso tacacá de tucupi meio adocicado, tendo ao fundo o Rio Guamá, que banha a cidade. Foi lá também que encontramos, embaixo de uma mangueira, a artesã D. Rizé, que tece, há décadas, belas almofadas, entre um papo com as amigas e uma alinhavada.

No dia seguinte, tivemos a grata satisfação de vivenciar a V Festividade do Círio de Santa Maria Mãe de Deus, na Comunidade Mocambo. Localizada na zona rural de Ourém, a Comunidade vem lutando contra fazendeiros da região pela terra herdada de seus antepassados escravos e tenta, a muito custo, ter o direito de ser reconhecida, pela burocracia governamental, como Comunidade Remanescente de Quilombo, o que sempre foi.

Numa simples e fervorosa procissão de fé, os moradores da comunidade e convidados não mediram esforços para, sob o sol quente, seguir a Santa na berlinda, carregada em um carro de boi, pelas estradas de piçarra de Ourém. Algumas senhoras foram descalças, homens a cavalo, mulheres carregavam seus filhos de bicicleta e até de motos, num claro sinal da evolução que vem ocorrendo na zona rural brasileira nos últimos anos, pelo menos em relação aos meios de transporte. Inclusive, já havia lido alguns analistas econômicos dizerem que esse fenômeno se dá em decorrência da maior facilidade do acesso ao crédito. Talvez eles estejam, enfim, certos.

Mas, também saberia depois da missa, pelas lideranças da comunidade, que o mesmo avanço não se deu na educação, na leitura, na inclusão tecnológica. A educação na comunidade ainda é precária, rudimentar: o ensino é seriado (várias séries na mesma sala e ao mesmo tempo); a Escola só tem até o ensino fundamental, depois os adolescentes têm que ir estudar na cidade de Ourém, se quiserem continuar seus estudos. Mas, por sorte, a comunidade é unida e tem consciência da importância da educação como fator de libertação e melhoria de sua qualidade de vida e conta com professores filh@s do Mocambo, como a Professora Valda, que nos contou a saga de ser educador@ na zona rural, tendo que "ser palhaço, ator, para poder dar conta do recado e assegurar um ensino melhor para as crianças e adolescentes da comunidade", dentro do contexto de exclusão em que vivem.

Ah, falando em crianças, elas deram um colorido todo especial à Festa do Círio de Santa Maria. Algumas vieram vestidas de anjinho, carregadas pelos pais em bicicletas. Outras seguiam a procissão puxando a corda da berlinda vestidas de marinheiros, carregando o sonho de, talvez, navegar além mar das águas do Rio Guamá, que banha Ourém. Foi um lindo cortejo, saudado a fogos pelos moradores em frente às suas casinhas de barro, que terminou com a missa na Igreja e um almoço comunitário, regado a maniçoba, vatapá, churrasco e risoto.

Também aproveitamos a viagem para mergulhar um pouco em busca dos griôs-mestres de Ourém. Assim, conseguimos ouvir e registrar várias "e-história" (estória + história) dos mestres da cultura popular, tod@s mantenedores da cultura do boi bumbá, como o Mestre Cardoso, Mestre Faustino, Mestre Tuiter, Mestres José Ferreira e Expedito(herdeiros do recém falecido Mestre Julião). Praticamente todos já têm suas músicas gravadas, pois Ourém teve a sorte de ter como um de seus viventes, o mago da música Fábio Cavalcante, também chamado de Fábio "Fabuloso" Cavalcante, por Hermano Vianna, do "O Globo" e do site Overmundo.

O multiinstrumentalista e apresentador do Programa Sala de Reboco na Tembés FM, prestou um grande serviço aos mestres de Ourém e à cultura popular brasileira, pois ao des-escondê-los, permitiu mostrar aos amantes de toadas as composições de nossos mestres, que já foram gravadas pela galera do Arraial do Pavulagem e do Boi Orube do bairro Satélite de Belém. E mais, Mestre Cardoso e seu grupo foram convidados para apresentar o boi bumbá no Theatro da Paz, na capital, acompanhados pela Orquestra Sinfônica, unindo o erudito com o popular, tendo sido aplaudidos de pé por duas noites inesquecíveis e marcantes para o Mestre e seus foliões. Uma maravilha de espetáculo, sem dúvida nenhuma.

E, como não poderia deixar de acontecer, fomos banhar no Rio Guamá, onde presenciamos um luar lindo nascer da pouca floresta que, ainda, tem resisitido ao ataque das seixeiras, que são as empresas que extraem de forma predatória as pedras que servirão à construção de apartamentos de luxo em Belém e também para a fabricação de componentes eletrônicos de multinacionais localizadas na Europa, nos Estados Unidos ou na China. São pedras que alimentam o sistema consumista atual, em que se troca de celular ou computador como se muda de roupa, e causam, como as pedras do crack, uma profunda e irreversível destruição ao meio ambiente (pessoas, solos, matas, rios, animais, lençol freático) de Ourém e a todo Planeta Terra, à NossaCasa Comum, à Patchamama. E tudo passando "despercebido" pelas autoridades locais, estaduais e federais de plantão. Um absurdo, sem dúvida nenhuma.

A rápida, mas profunda, visita a Ourém foi uma "Dádiva", como diz meu amigo-poeta Arlindo em uma de suas canções para o mundo:

"Quantos ainda não sabem
A dádiva de bem viver?
Quantos ainda hão de vir
Antes do alvorecer?
Continuar a sonhar
É fazer acontecer..."

Que Santa Maria nos ilumine e nos faça retornar em breve, aportando também pelas bandas do nordeste paraense nossa biblioteca comunitária BArca das Letras para contribuir para a formação de leitores nas comunidades da periferia e da zona rural de Ourém, como já combinado.

Clique na imagem abaixo e veja um pouco desta maravilhosa e mistica viagem. Os vídeos gravados em breve estarão no www.mochileirotuxaua.blogspot.com e no Canal Youtube NossaCasa http://www.youtube.com/user/NossaCasadeCultura.

Para saber mais de Ourém acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=sRml_WcIxYM
http://www.youtube.com/watch?v=o4LbGd7wNdo&feature=related
http://www.overmundo.com.br/banco/oureana-de-alem-mar-ourem-terra-de-moura
(livro sobre Ourém)
Para ler a reportagem do Mestre Cardoso no Theatro da Paz acesse http://www.fabiocavalcante.com/midia.php


Um comentário:

  1. Marcia Sueli (Mato Grosso)
    TAXAUA TÔ GOSTANDO DE VER !!!!
    A NARRATIVA TÁ ÓTIMA DE LER. A HISTÓRIA É MUITO LINDA E RICA NA CULTURA LOCAL.
    xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

    Jean Marconi (Brasília)

    ah Jonas... Mais uma vez, encantador! :D
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    Edson Alves (São Paulo)
    Jonas!
    Obrigado pelo texto, ele é muito amplo em percepções... Foi prazer poder conhecer e reconhecer essas partes inteiras de parte da gente!

    Eu, por experiência própria sei que nem sempre é possível se fazer entender bem... Nem sempre é possível esperar pela real compreensão, principalmente aos olhos daqueles que estão distantes desse olhar, que caminham em outras direções, que possuem concepções distintas em relação ao que percebemos por igualdade, distribuição, crescimento, entre tantos outras coisas fundamentais.

    Tem algo que Clarice Lispector escreveu que tem muito a ver com essas andanças, com a visão que tenta descrever, abordar, enfim, com as buscas...

    "Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...
    Ou toca, ou não toca." Clarice Lispector

    Valeu!
    Até breve!
    xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

    Wemerson Augusto
    Cearánews! On Laini

    Salve Jonas! Sempre com boas dicas.

    Abraço
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Jonas Banhos
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